Mito da Contaminação Cognitiva do Juiz no Processo Penal, O - Imparcialidade, Sistema Acusatório e Dever Constitucional de Proteção dos Direitos Fundamentais
Gilson Miguel Gomes da SilvaVersão impressa
Ficha técnica
Autor(es): Gilson Miguel Gomes da Silva
ISBN: 978652632309-0
Acabamento: Brochura
Formato: 15,0x21,0 cm
Peso: 487grs.
Número de páginas: 380
Publicado em: 17/04/2026
Área(s): Direito - Administrativo; Direito - Constitucional; Direito - Jurisprudência; Direito - Penal; Direito - Processual Penal
Sinopse
Prefácio: Edilson Mougenot Bonfim - Posfácio: Paulo César de Corrêa Borges
Nesta obra, fruto de profunda investigação acadêmica e de uma sólida trajetória jurídica, o Dr. Gilson Miguel Gomes da Silva promove um reexame necessário e corajoso dos alicerces do processo penal brasileiro. O autor desafia o status quo dogmático ao desconstruir, com rigor metodológico e amparo em dados estatísticos inéditos, o difundido argumento da “contaminação cognitiva” do julgador.
A jornada intelectiva principia com um alerta ao leitor sobre a metodologia para abordagem histórica de institutos e estabelece uma genealogia dos princípios estruturantes do processo penal sob a égide democrática. Reafirma o papel do juiz como garantidor da justiça substancial em um sistema de matriz inquisitorial (inquisitorial system), orientado pelo princípio da investigação e pelo interesse público, distinguindo-o do modelo puramente adversarial (adversarial system), cujas raízes anglo-saxãs não encontram solo na tradição jurídica brasileira.
O estudo avança para um diagnóstico crítico da realidade criminal e carcerária brasileira. Com argumentos fáticos e técnicos, o autor refuta a tese de uma suposta genética fascista e marcado por resquícios do sistema inquisitivo medievo. A obra confronta o elevado índice criminal e a impunidade que campeia no país, evidenciando o equívoco da tese do “encarceramento em massa”. Através de uma análise comparada, demonstra-se que o Brasil, em verdade, prende pouco e que seus índices de custódia cautelar guardam simetria com parâmetros internacionais, revelando que o Direito Penal é aplicado como ultima ratio. Adentra em solo árido ao analisar a tipologia e a periculosidade dos detentos, bem como o perfil sociodemográfico e racial da massa encarcerada, expondo a irrealidade do aprisionamento puramente seletivo.
O núcleo disruptivo do trabalho apresenta um estudo empírico monumental envolvendo o escrutínio de mais de 500 mil acórdãos do Tribunal de Justiça de São Paulo. Os números revelam que a atuação na fase inquisitorial não induz o juiz ao viés condenatório. A constatação de que o Tribunal condena mais que o primeiro grau afasta a suposta “preconcepção” judicial decorrente do contato com o inquérito. Com agudeza teórica, o autor aponta interpretações equivocadas de julgados do Tribunal Europeu de Direitos Humanos e falhas na transposição da Teoria da Dissonância Cognitiva de Leon Festinger e do experimento de Bernd Schünemann para o cenário nacional, que ignoram as particularidades do sistema processual brasileiro, evidenciando as distorções hermenêuticas, frequentemente utilizadas para fundamentar de forma artificial a figura do juiz das garantias. Além disso, a investigação ampliou o espectro de compreensão do comportamento humano e da tomada de decisões.
Por fim, a obra culmina na demonstração da incoerência lógica de certas vedações impostas ao juiz, pois arremata que a imparcialidade reside na clara diferenciação entre os requisitos legais para a concessão de medidas cautelares e aqueles próprios da prolação de uma sentença condenatória. O autor questiona a disparidade de tratamento entre a admissibilidade do “despacho” unilateral da advocacia ou da acusação e a estigmatização da atividade cautelar de ofício, e sedimenta que, por força da garantia do devido processo legal e do dever constitucional de fundamentação das decisões, com base nas provas dos autos, a preservação da imparcialidade reside na racionalidade humana do julgador e no sistema recursal vigente, e não na fragmentação do juízo — especialmente em um ordenamento que não possui a figura do juiz de instrução.
Retrata um modelo dialógico de sistema acusatório apto a alcançar, para o caso concreto, a verdade possível dos fatos e a justiça na mesma medida dessa possibilidade, sem se olvidar de expor medidas de limites e salvaguardas para o juiz ativo no sistema acusatório.
O Mito da Contaminação Cognitiva do Juiz no Processo Penal é, portanto, uma obra imprescindível. Ao afastar a necessidade da custosa figura do juiz das garantias sob o pretexto da contaminação — o que representaria uma economia de bilhões aos cofres públicos —, ou a sua permanência restrita no campo da especialidade e da celeridade (muito embora ainda não haja dados para se quantificar esses benefícios), Gilson Miguel Gomes da Silva entrega à comunidade jurídica uma defesa técnica da imparcialidade, do devido processo legal e da proteção eficiente da coletividade.
Autor(es)
Gilson Miguel Gomes da Silva
Doutor em Direito pela Universidade Estadual Paulista (UNESP–Franca). Mestre em Direito Processual Penal pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC/SP). Possui especializações em Direito Processual Penal pela Escola Paulista da Magistratura (EPM) e em Direito Anticorrupção pela ENFAM, além de diversos cursos de aperfeiçoamento e atividades formativas nas áreas jurídica e de segurança pública. É Juiz de Direito do Tribunal do Estado de São Paulo, e atuou em instâncias consultivas relevantes, integrando a Comissão do Novo Código de Processo Penal da Associação Paulista de Magistrados (APAMAGIS) e o grupo de trabalho da Associação dos Magistrados Brasileiros (AMB), voltado à análise de reformas processuais penais e do Juiz das Garantias. Oficial da reserva da Polícia Militar do Estado de São Paulo, com a patente de Capitão, recebeu formação especializada em instituições internacionais como FBI e SWAT, sobre gerenciamento de crises, negociação de reféns e operações especiais. Dedica‑se ao ensino superior como Professor da Cadeira de Direito Processual Penal na Universidade de Araraquara (UNIARA) e de Assistente na EPM.
Sumário
LISTA DE ABREVIATURAS E SIGLAS, p. 27
INTRODUÇÃO, p. 31
Capítulo 1 PROCESSO PENAL BRASILEIRO: ASPECTOS HISTÓRICOS E PRINCÍPIOS ESTRUTURANTES, p. 37
1.1 CONSIDERAÇÕES METODOLÓGICAS PARA A ABORDAGEM HISTÓRICA, p. 37
1.2 PANORAMA HISTÓRICO DO PROCESSO PENAL BRASILEIRO, p. 41
1.3 OS DIREITOS DO HOMEM E DO CIDADÃO "SUSPENSOS" PELA REVOLUÇÃO FRANCESA, p. 48
1.4 CONCEITO, FINALIDADE E AUTONOMIA DO PROCESSO PENAL, p. 54
1.5 PRINCÍPIOS CONSTITUCIONAIS ESTRUTURANTES DO PROCESSO PENAL DEMOCRÁTICO, p. 68
1.5.1 Dignidade da Pessoa Humana, p. 72
1.5.2 Presunção de Não Culpa ou de Inocência, p. 76
1.5.3 Igualdade Processual, p. 84
1.5.4 Devido Processo Legal, p. 85
1.5.5 Contraditório, Ampla Defesa e Plenitude de Defesa, p. 87
1.5.6 Juiz Natural e Imparcial, p. 92
1.5.7 Busca da Verdade Real e Justiça Substancial, p. 94
1.5.8 Inadmissibilidade das Provas Ilícitas, p. 99
1.5.9 Publicidade, p. 100
1.5.10 Da Efetividade: Vedação do Excesso e Proteção Insuficiente, p. 101
1.5.11 Motivação ou Fundamentação das Decisões Judiciais, p. 109
1.5.12 Duplo Grau de Jurisdição, p. 112
1.6 SISTEMAS PROCESSUAIS PENAIS E A ESTRUTURA ACUSATÓRIA BRASILEIRA, p. 114
1.6.1 Sistema Inquisitivo, p. 122
1.6.2 Sistema Acusatório, p. 128
1.6.2.1 Sistema acusatório e suas vertentes adversarial system e inquisitorial system, p. 134
1.6.3 Sistema Misto, p. 138
Capítulo 2 DIAGNÓSTICO CRÍTICO DO SISTEMA DE JUSTIÇA CRIMINAL, p. 141
2.1 O CÓDIGO DE PROCESSO PENAL DE 1941 E CRÍTICAS ESTRUTURAIS, p. 141
2.1.1 Origem Autoritária, Contexto Histórico e Traços Inquisitoriais, p. 142
2.2 INDICADORES ESTATÍSTICOS E POLÍTICA CRIMINAL, p. 147
2.2.1 Dispositivos Legais Mitigadores do Encarceramento Penal, p. 148
2.2.2 Encarceramento em Massa ou Superpopulação Carcerária: Análise à Luz de Dados Empíricos, p. 151
2.2.3 População Carcerária e Presos Provisórios no Brasil, p. 160
2.2.4 Cifras Ocultas, Estatísticas Criminais e Produtividade Institucional, p. 166
2.2.4.1 Panorama dos elevados índices de criminalidade, p. 170
2.2.4.2 Registros de dados criminais no Estado de São Paulo, p. 172
2.3 SELETIVIDADE: TIPOLOGIA CRIMINAL E ATRIBUIÇÃO CONSTITUCIONAL DAS POLÍCIAS COMO FATORES DE APRISIONAMENTO CRIMINAL, p. 174
2.4 ENTRE A IDEALIZAÇÃO CULTURAL DO CRIME E A RACIONALIDADE DO AGENTE CRIMINOSO: DESAFIOS À POLÍTICA CRIMINAL CONTEMPORÂNEA, p. 180
Capítulo 3 O ARGUMENTO DE "CONTAMINAÇÃO COGNITIVA" DO JULGADOR E SUA INEXISTÊNCIA COMPROVADA PELA ANÁLISE EMPÍRICA, p. 189
3.1 ORIGEM E DIFUSÃO DOGMÁTICA DO ARGUMENTO DA CONTAMINAÇÃO JUDICIAL, p. 189
3.1.1 A Construção Teórica da "Contaminação" na Doutrina Processual Penal, por Meio do Arranjo de Decisões Internacionais, p. 190
3.1.2 A Propagação da "Contaminação" e o Silêncio dos "Contaminados", p. 197
3.2 TEORIA DA DISSONÂNCIA COGNITIVA E O PROCESSO PENAL, p. 205
3.2.1 Conceito de Dissonância Cognitiva e Sua Transposição para a Prática Jurisdicional, p. 205
3.2.2 Limites Epistemológicos e Metodológicos Dessa Aplicação no Processo Penal, p. 211
3.3 O EXPERIMENTO DE BERND SCHÜNEMANN, p. 212
3.3.1 Contexto, Premissas e Conclusões do Experimento, p. 213
3.3.2 Críticas à Aplicabilidade do Experimento ao Sistema Processual Brasileiro, p. 219
3.4 EVIDÊNCIAS EMPÍRICAS SOBRE JULGAMENTOS CRIMINAIS E IMPARCIALIDADE TÉCNICA, p. 225
3.4.1 Análise Estatística Comparativa: Primeira e Segunda Instâncias, p. 228
3.4.2 O Impacto dos Números Criminais na Atuação do Poder Judiciário, p. 232
3.4.3 Poder Judiciário: Números da Primeira Instância, p. 233
3.4.4 Poder Judiciário: Números da Segunda Instância, p. 236
3.4.5 A Relevância dos Índices de Absolvições em Primeira Instância e de Condenações em Segunda Instância para Afastar a Hipótese de "Contaminação", p. 244
3.4.6 A Racionalidade Processual como Elemento de Superação de Vieses Cognitivos, p. 246
3.4.7 A Desconstrução das Premissas de "Contaminação" do Juiz ao Manter Contato com o Inquérito Policial, p. 250
3.5 CONCLUSÕES PARCIAIS: A INEXISTÊNCIA DE "CONTAMINAÇÃO" JUDICIAL NO CONTEXTO BRASILEIRO, p. 253
Capítulo 4 O JUIZ DAS GARANTIAS E O DEVER GARANTISTA DO JUIZ NA PROTEÇÃO DOS DIREITOS FUNDAMENTAIS, p. 259
4.1 GÊNESE LEGISLATIVA E FUNDAMENTOS TEÓRICOS DO JUIZ DAS GARANTIAS, p. 259
4.2 INCONSISTÊNCIAS JURÍDICAS, ESTRUTURAIS E FUNCIONAIS DO MODELO BIFÁSICO, p. 262
4.3 COMPETÊNCIAS DO JUIZ DAS GARANTIAS ESTABELECIDAS PELO STF, p. 267
4.4 INAPLICABILIDADE DO JUIZ DAS GARANTIAS: DELIMITAÇÃO DE COMPETÊNCIA FIXADA PELO STF, p. 280
4.5 CONSIDERAÇÕES SOBRE ASPECTOS DA DECISÃO DO STF, p. 286
4.6 FUNÇÃO JURISDICIONAL: A ATUAÇÃO DO JUIZ NO SISTEMA ACUSATÓRIO ORIENTADO PELO MODELO INQUISITORIAL SYSTEM, p. 290
4.6.1 Poderes-Deveres do Juiz para a Garantia dos Direitos Fundamentais no Processo Penal, p. 295
4.6.1.1 Atuação probatória do juiz como instrumento de justiça, p. 302
4.6.1.2 Medidas cautelares decretadas e revogadas ex officio, p. 309
4.6.1.3 Medidas cautelares atípicas e poder geral de cautela do juiz, p. 323
4.7 PROCESSO PENAL DIALÓGICO: O SISTEMA ACUSATÓRIO ORIENTADO PELO PRINCÍPIO DA INVESTIGAÇÃO (INQUISITORIAL SYSTEM), p. 332
4.8 LIMITES E SALVAGUARDAS DO JUIZ ATIVO NO SISTEMA ACUSATÓRIO, p. 343
CONCLUSÃO, p. 351
POSFÁCIO, p. 355
REFERÊNCIAS, p. 359
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